De HOPenhagen a… FLOPenhagen…

Gigi Bandler
Recife | jan 2010.

 
   



GRRRRRRRRRRRRRR….. A frustração e a ira ia subindo nas ruas dia após dia na última semana da  desastrada Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas que houve em Kobenhaven/Copenhagen, do 7 ao 18 de dezembro passado.   

 
    GRRRRRRRRRRRRR... Faziam as panteras iradas, 9 ativistas feministas e ambientalistas sul americanas e europeas articuladas pelo grupo de teatro feminista brasileiro Loucas de Pedra Lilás de Recife; agitando com sua performance teatral, alguns espaços possíveis da cidade - ruas, hall e seminários da conferência paralela, o Klimafórum, no metro, nas manifestações coletivas.  A missão das panteras:  lembrar  para tod@s que não pode haver justiça climática sem ter também justiça de gênero.     
         
    Be ready, be ready, we´re ringing the bell. We want climate justice with gender as well!      
         
   

Obama, Obama, don´t joke with Pachamama! Grrr....

Antes de começar, a COP15 já trazia para o mundo sua ambigüidade, seu impasse e sem medo de dizer as palavras sua… falsidade.  É bom lembrar que no inicio de novembro, se anunciava que nenhum chefe de estado importante (leia se Obama) ia estar presente na Conferência. Os Estados Unidos declaravam que até 2020 iam reduzir suas emissões de CO2 de… 10 a 15 % [1]. Um nada frente aos 40 % exigidos pela sociedade civil organizada do mundo para que o planeta já ameaçado não amargasse um aumento superior a  2 graus de temperatura. 

Dez dias depois, a China apresentou um plano – voluntário - de corte de 35 a 40%.  O Brasil se apressou também - voluntariamente - para os mesmos valores. (Grrrr…. Do we trust the will of China and Brazil ?) E há 15 dias do início da conferência, de repente, todas as grandes lideranças nacionais anunciaram sua presencia.  Para que? O último dia mostrou que os países ricos e os ricos dos países menos ricos não querem ceder nem poder nem privilégios. Querem manter um padrão de vida e consumo que não é sustentável.[2]    

O Bella Center, centro da conferência oficial, era um grande banco de negócios.  Os lobbies petroleiros estavam todos presentes vendendo sua nova face “green”. As delegações nacionais, como a brasileira por exemplo, eram muitas vezes compostas não só de diplomatas e de ONGs ambientalistas (poucas), mas também de muitos executivos de grandes bancos e empresas de agronegócio, empreiteiras diretamente responsáveis da degradação ambiental dos países . No caso do Brasil , a maioria (como a Vale, o BNDES, até a Coca Cola!) estavam o tempo todo negociando créditos de carbono e... vendendo etanol.  

Por tanto, nenhum acordo justo, ambicioso e sobretudo vinculante/compulsório foi assinado.  Um fundo solidário de recursos para ajudar as políticas ambientais de países em desenvolvimento foi bem anunciado pelos Estados Unidos, mas em termos tão vagos quanto a sua implementação e funcionamento, que a noticia caiu no vazio e na desconfiança.   Como bem resumiu Kumi Naioddo, diretor internacional do Greenpeace, Copenhagen foi a cena de um crime climático, com homens e mulheres culpados, fugindo para o aeroporto com vergonha
[3].   E mais: cobrindo os ouvidos para não ouvir  o clamor vindo da rua.

Change the system, not the climate! There is no planet B!
Rich countries pay your climate debt!
  

Esses eram os motes principais da rua onde centenas de organizações, movimentos sociais e milhares de cidadãs e cidadãos se encontravam, vindo do mundo inteiro para apresentar suas propostas, pressionar, interrogar. Pessoas que se confrontaram muitas vezes com a polícia, que seja dentro ou fora do espaço oficial.  Muitos jovens, muitas mulheres, muitas raças misturadas. Muita criatividade. E com muita gana de serem ouvidos. 

We will not die quietly,
disse a delegação de jovens que interromperam as “negociações” dentro do Bella Center, simulando com as mãos ritmadas, os dedos estalando, os pés batendo no chão, uma tempestade enorme, um typhoon, sempre mais freqüente s em várias partes do planeta. (Eu sei o que é ter medo da mudança climática disse uma jovem vivendo em Fiji, território do Pacifico, um dos mais ameaçados).  Outro feito criativo e ousado foi a leitura de uma declaração oficial do Canadá que prometia reparar e mudar toda sua conduta criminal com o meio ambiente (ex. os Tar Sands). O governo canadense se apressou em desmentir a declaração.  Os famosos Yes Men estavam atrás dela.

Outro ainda, foi o prêmio da Angry Mermaid (ela também!) (ver mais na frente)
E entre outros numerosos protestos vibrantes, havia também... as panteras.
 

Emissions down! Women´s rights up! 
A terra é nossa casa. E a casa não é só das mulheres...

As panteras fêmeas com suas cabeças de palha, seu figurino amarelo e preto, contrastando com o gris e o escuro ambiente, com seios e vagina de diversos tamanhos a mostra, estavam aí para chamar o máximo de atenção... para o tema das mulheres.  Em inglês, espanhol, português, elas coreografavam um texto curto, incisivo, irônico e irreverente que surpreendia e seduzia seu público [4]·.  Mostravam em sumo que as mulheres estão fartas de estar lavando a roupa de tod@s, e ser obrigadas a sustentar um mundo... insustentável e ameaçador;  que as mulheres estão ausentes nos lugares de decisão e muitas vezes proibidas de estar nestes lugares.  Por isso são as primeiras a sofrer das conseqüências das mudanças climáticas e por isso se metamorfosam, às vezes, e sempre mais, em mulheres-bichos, cheias de ira enérgica e querendo expressá-la, visibilizá-la.  A “digna rabia” da autonomia zapatist@s estava fervendo nas veias dessas fêmeas vestidas de panteras.  GRRRRRRRRRRrrrrrr...
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      Havia panteras boliviana, colombiana, mexicana, brasileira, uruguaia, argentina, suíça e austríaca.  Do Brasil, questionava diretamente o presidente Lula, perguntando: Oh Lula, oh Lula, você já cortou cana ? Oh Lula, o Lula, have you ever cut sugarcane? e sem esperar a resposta, entoavam o canto da Escrava Isaura, novela internacionalmente conhecida, mimando o ritmo de trabalho subumano e subpago dos cortadores de cana. Uma alusão clara ao desastre social (e ambiental) do etanol, o bicombustível, “limpo” segundo o discurso triunfante do atual governo brasileiro mas visto com suspeita por muit@s especialistas já que ameaça tirar a terra da produção de alimentos para a população.   Da região amazônica, as panteras saudavam a amiga Chita, a macaca de Jane e Tarzan, homenageando-a com uma dança “a caráter”. Depois, sérias, repudiavam a truculência dos poderosos interesses financeiros (Eles matam e desmatam – They kill and cut down trees), debochavam do pânico das bolsas mundiais (the New York Stock Exchange, the Singapoor poor Stock Exchange), aclarando para quem ainda não tinha refletido sobre isso, que o problema não era a pobreza, e sim a má distribuição da riqueza 
(eat the bankers! Grrrrrrr).  Daí a urgente necessidade em democratizar o poder financeiro e garantir a autonomia das pessoas...  e das mulheres (Queremos mandar nos bancos centrais e.... no nosso corpo também!).
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    As panteras não estavam credenciadas para entrar no Bella Center. Então elas rondavam tanto no centro da cidade, no metro, na estação, como irromperam no Klimafórum, conferência paralela da sociedade civil organizada. Foram sempre bem acolhidas e convidadas a se apresentar. Foi o caso, no grande palco Orange do Klimafórum, frente a um público caloroso reunido para começar a cerimônia do prêmio das maiores empresas poluidoras e mentirosas do ano dado pela Angry Mermaid [5], a sereia (também) irada.

Mas as panteras também estavam esperadas em alguns espaços de discussão para dar seu toque feminista irreverente. Como no seminário REDD in Amazonia , will the rainforest be part of the carbon market?  (Redd - Redução das emissões por desmatamento e degradação) organizado pela Fundação Heinrich Böll, que teve a gentileza de flexibilizar a sua mesa de debate para as panteras... atrasadas.  A companheira brasileira Camila Moreno da ONG Terra de Direitos encerrava sua fala reforçando mais uma vez a permanente vigilância da sociedade frente a um mercado voraz, predador e cínico pois  ainda quer ser indenizado por seus crimes ambientais.  

As panteras também chegaram na gostosa e fluída roda de dialogo Reflecting on gender and climate change animada pelo GenderCC, uma organização que articula várias lideranças mulheres ambientalistas do Sul e Norte para visibilizar a desvantagem das mulheres no contexto da crise ambiental.  E quem estava no meio da roda, a caráter, o tempo todo? A pantera Claudia, da ONG Fundexpresión (Santander, Colômbia)!  Durante o dialogo, não foram poucas as pessoas que entravam na roda e se referiam seja às palavras das panteras, seja à sua irreverência.

Segundo estimações aproximativas, um total de hum mil pessoas viram a performance das panteras iradas. Mas estas eram mais conhecidas ainda:  aparecerem várias vezes no noticiário da TV Dinamarquesa a noite da quarta feira 16, dia da manifestação frente ao Bella Center, ou para dizer melhor, frente à policia. Sem muito perceber, as panteras estavam na primeira linha do confronto. Tinham se prestado a fazer o cordão que continha os demais manifestantes quando estes avançaram.


Ficaram com fama de corajosas... se atracaram com esta policia nada simpática
[
6], que no entanto, uns minutos antes do choque, tinha conseguido esboçar uns sorrisos desconcertados com estas inimigas, mulheres panteras tão transparentes quanto a seu estado de animo. GRRRrrrrrrrrrrrr!

As panteras eram parte da estupefação e indignação coletivas que tomavam conta da sociedade civil organizada presente em Copenhagen. O Bella Center fechou as portas para que os ditos grandes líderes mundiais estivessem... menos constrangidos em mostrar os interesses que os manipulavam.  Mesmo assim, tiveram que sair pelas portas do fundo – como denunciou Hugo Chávez falando de Obama – ou “fugindo culpados, para o  aeroporto com vergonha”.

O passado e o futuro mostram que para a espécie humana sobreviver e sobreviver com qualidade, a consciência e a ação/pressão cidadã devem intensificar sempre mais. No dia a dia, no modo de vida de consumo e de produção mas também nos eventos políticos maiores.  Até porque é mais difícil para mídia corporativa  ignorar os protestos e o fundo das reivindicações e questionamentos  dos movimentos.

As panteras sabem que contribuíram para esta visibilidade. Missão (provisória) terminada. Quem sabe na COP16 (Dezembro 2010, México, DF) 50 panteras nas ruas?
 
     
         
     

[1] que na base do ano escolhido, de fato, representava uns miseráveis 3%...

[2] Retomando a avaliação da Iara Pietricovsky, do Inesc,  que estava na COP15 (citada no Brasil de Fato,  edição do 23 ao 30 de dezembro de 2009)

[3] Citado no editorial do Brasil de Fato, edição 24 a 30 de dezembro de 2009

[4] Desde a segunda apresentação, um/a anônimo/a colocou a performance no Youtube. Há também uma entrevista da pantera Gigi para uma rádio canadense.

[5] O grande premio foi ganho pela Monsanto que teve o cinismo de conseguir colocar uma certificação ecológica na sua soja geneticamente modificado, responsável de maior desmatamento e emissões de CO2 na extensão do seu plantio.

[6] Os relatos da repressão eram terríveis com casos assemelhados a tortura física e psicológica. Prendiam arbitrariamente e deportavam as fronteiras. 

   
 

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publicação Mundo Solidário | ASW | Alemanha